Raridades & Preciosidades
“As crendices dos crentes os tornam descrentes e cegos
por um sistema puramente religioso”. Levy de Lima
Sinopse sobre as Cartas de Paulo:
O conjunto das Cartas Paulinas compreende um total de treze Cartas que reivindicam a paternidade do Apóstolo Paulo. A ordem em que se encontram no cânon bíblico não reflete a data em que foram escritas, mas foram organizadas segundo a sua extensão.Alguns procuram agrupar as Cartas do seguinte modo:
a) Cartas maiores: Romanos,1-2 Coríntios, Gálatas e 1-2 Tessalonicenses.
b) Cartas da prisão: Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemon.
c) Cartas pastorais: 1-2 Timóteo e Tito
Outra classificação pode ser feita a partir da possível autoria das mesmas:
a) Cartas Proto-Paulinas: que seguramente são autênticas, isto é, que são de autoria do Apóstolo Paulo, e que são aceitas por todos os estudiosos: Romanos, 1-2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filemon.
b) Cartas Deutero-Paulinas: são aquelas cuja autenticidade não é segura ou é negada por certo número de estudiosos: Efésios, Colossenses e 2 Tessalonicenses.
c) Cartas Trito-Paulinas: 1-2 Timóteo e Tito. Essas dificilmente seriam do Apóstolo Paulo, pois usam uma linguagem diversa e tratam de problemas que existiam nas comunidades no final do I século.
É certo que algumas Cartas de Paulo foram perdidas. Em 1Cor 5,9 já se fala de uma Primeira Carta aos Coríntios. Em Cl 4,16, Paulo se refere a uma Carta escrita aos cristãos de Laodicéia. E temos ainda a famosa “Cartas em lágrimas” aos Coríntios (2Cor 2,4). Alguns estudiosos afirmam também que a Carta aos Filipenses é um conjunto de vários bilhetes. E também que a 2Cor é um ajuntamento de várias cartas, enviadas em datas diferentes.
Outro aspecto interessante é o de que as cartas não foram escritas do próprio punho do Apóstolo. Ele as ditava (cf. Rm 16,22) e às vezes assinava (cf. Gl 6,11). Talvez a carta a Filemon tenha sido o único escrito com sua própria mão.
Uma constante nas cartas de Paulo é a afirmação que ele faz da sua vocação. Por várias vezes lembra que o seu ser apóstolo de Jesus Cristo é sinal primordial da intervenção divina na sua vida. À missão de evangelizar os gentios ele se dedica por inteiro e busca formas novas, através das cartas, de se fazer presente junto às comunidades fundadas por ele como missionário itinerante. Escrever era a forma de manter viva a fé das comunidades, porque Paulo não podia estar em todas elas ao mesmo tempo. Isso tudo para que o evangelho seja anunciado.
O núcleo da mensagem de Paulo em todas as suas cartas é o Kerigma cristão, ou seja, o anúncio da morte e ressurreição de Jesus. Toda a teologia paulina é gerada a partir do evento da cruz, sinal de escândalo, portanto, de fraqueza, transformado em princípio de salvação e ressurreição. Portanto, para compreender Paulo é importantíssimo considerarmos a crucificação de Jesus, sua morte e ressurreição.
Paulo é um escritor que anuncia o Evangelho, ou melhor, é um missionário que escreve. Ele é poeta e culto, mas para fazer-se compreender usa palavras simples e profundas. Todas as suas cartas são portanto, como que geradas do seu coração. E assim Paulo deixa transparecer em cada palavra que escreve sua paixão por Jesus e pelo seu povo.
John Huss -
Palavras de Jesus “... a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). E foi a essa Verdade a que John Huss se submeteu. Em sua época, havia uma “verdade” oficial e inquestionável:
1. Um Homem Comum, Mas Sonhador
A.Infância Pobre
John Huss (1369-1415) foi um homem de origem simples. Nasceu no vilarejo de Hussinecz, sul da Boêmia. Seus pais eram camponeses. Sua mãe, muito religiosa, quis que o filho fosse sacerdote. Mais tarde, Huss admitiu ter iniciado a carreira religiosa pelo dinheiro e prestígio que ela dava, mas seu interesse por Deus veio quando ele começou a estudar mais profundamente.
B. Aluno Médio
Huss não foi um aluno brilhante, mas parecia determinado a estudar e crescer. Assim, formou-se na universidade, tornou-se Mestre e dirigente da Capela de Belém, em Praga, cidade importante em seu país. Nesta Igreja, Huss pregava na língua do povo. Nas outras, o serviço religioso era feito em latim.
C. Pastor Preocupado
Huss foi um pastor dedicado. Sua preocupação era agradar a Deus com uma vida santa e prover sólida alimentação espiritual ao povo. Criticava duramente os líderes da Igreja por usarem seus ofícios em benefício próprio, vivendo no conforto e na imoralidade. Para Huss, a autoridade de um líder religioso vinha do seu caráter e não da sua posição.
Huss insistia que o povo deveria viver em total dependência de Deus, numa vida simples e consagrada ao trabalho.
Deus sempre levanta homens simples que sonham em ver a verdade de Deus como luz e guia dos homens.
2. Um Homem que Enfrentou a Oposição em Nome da Verdade
A. Deus Agindo na História
Deus é soberano. Ele é Senhor da história. Age na história e a dirige segundo a sua vontade. Aquele filho de camponeses foi ferramenta importante. Pela providencia de Deus, Huss fora colocado como o dirigente da Capela de Belém, na importante cidade de praga. A rainha Zofie costumava freqüentar aquela igreja. Ela era esposa do rei Václav da Boêmia. Zofie influenciou o rei para que facilitasse as reformas pretendidas por Huss. Com isso, a reforma cresceu, tendo Huss como líder e o Rei como escudo contra as investidas do papa.
B. Coragem para Estabelecer a Verdade
Apesar da cobertura do Rei, surge no cenário o Arcebispo de praga, chamado Zbynek, um ex-militar e agora superior de Huss. Um estrategista, que usou de seus recursos financeiros e políticos para obter este poderoso cargo no arcebispo de Praga. Zbynek não teve qualquer preparo teológico ou formação eclesiástica. A missão dele era a de erradicar a heresias de Wycliff naquela região e com isso ganhar favores do papa. Zbynek tornou-se grande inimigo da causa reformista de Huss.
C. Radicalismo ou Fidelidade a Deus?
Huss, influenciado pelos escritores de John Wycliff, tornava-se cada vez mais um apaixonado pela reforma da Igreja de Jesus Cristo. Começa então a andar em terreno perigoso. Em 1405 declara que a suposta aparição do sangue de Cristo nos elementos da comunhão não passava de embuste. Em seus sermões, condenava o pecado dos padres, bispos e arcebispos. Declarava que os crentes tinham o mesmo direito que os sacerdotes de participarem do cálice na ceia, e não somente do pão. Ridicularizava o pretenso poder dos sacerdotes de concederem o Espírito Santo a uma pessoa ou mandarem-na para o inferno.
Foram muitas e duras as críticas expostas por Huss do púlpito de sua igreja e da tinha de sua pena. Huss via a Igreja de Cristo em uma situação de clamidade e não pôde se conter diante de tantas irregularidades.
Conseqüentemente a liderança da Igreja começou a reagir. Zbynek ficou enfurecido ao saber que muitos pregadores, seguidores de Huss, acusavam Zbynek de simonia (venda de milagres) e imoralidade. Zbynek resolveu calá-los prendendo-os. Entretanto, Huss respondeu: “Como pode haver sacerdotes imorais e criminosos andando pelas ruas livremente, enquanto que os humildes homens de Deus estão enjaulados como hereges e sofrendo privações por causa da proclamação do Evangelho?”¹
O arcebispo Zbynek passou a enviar espias à igreja de Huss para ouvirem seus sermões. Huss sabia disso, mas não se intimidava.
Com a força do Espírito de Deus Huss tornou-se um gigante em plena Idade Média. Huss enfrentou o poder corrupto dentro de sua própria igreja e não temeu. Seu único temor era reservado àquele que é Senhor da Igreja e da História. Ao constatarmos isso podemos perceber quão omissos somos hoje!. Diante de corrupção, da violência, injustiça e desigualdades sociais que verificamos, a coragem e audácia de John Huss devem ser grande exemplo de lutarmos e acreditarmos no reino de Deus entre nós.

